Bart 6323 "Batalhão de Artilharia Ligeira 6323

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O BART 6323, foi formado na cidade histórica de Evora, no extinto Ral 3 (Regimento de artilharia ligeira nº 3 ) teve uma pequena participãção na revolução de 25 de Abril de 1974 e partiu para Angola a 13 de Maio. Foi o primeiro a partir depois de 25 de Abril de 1974 para Angola.

E certamente o primeiro a partir com mentalidade diferente dos seus antecessores. Isto é: uma mentalidade mais pacífica do que bélica.
Para a 1ª CART até a data da partida parece ter sido escolhida - 13 de Maio, com chegada a Luanda a 14, debaixo de um calor abrasador.

Não quero com isto condenar ninguém - aqueles que combateram antes de 25 de Abril, pois nós éramos apenas «cordeirinhos» mandados e que fomos impelidos quase compulsivamente a fazer parte duma «engrenagem» bélica.

E o dever era obedecer.
E muitas vezes obedecer aos versos do Paco Bandeira: ter de matar para não morrer.

Recordo-me de uma frase de um comandante, no RAAF em Queluz, que dizia: não há soldados maus, os soldados só são maus quando os comandos o são.

Faz parte do ser humano, onde há guerra há atrocidades, e tenho ouvido relatos, histórias de camaradas que lutaram antes de nós, que vão além da imaginação.

Relatos que me fizeram crer que apesar de tudo a 1ª CART do 6323 foi uma companhia com muita sorte, não pelo o que passámos, não pelo que fomos obrigados a deixar passar, não pelo que fomos obrigados a assistir, não pelas perdas humanas, porque essas a tristeza me acompanhará até ao meu fim, mas por termos a sorte de termos sido comandados por homens de bem, especialmente o Capitão Miliciano Ramiro Pinheiro, que ao contrário dos versos do Paco Bandeira, eu ainda hoje acredito que, preferiu morrer de que matar, fazer matar ou deixar morrer.

Para a história fica que a 1ª. CART do BART 6323 chegou a Luanda a 14 de Maio de 1974, esteve no Campo Militar do Grafanil até 20 do mesmo mês a no dia seguinte rumou até ZALA. Aqui permaneceu dois meses, onde ainda fez algumas operações e escoltas e dado a situação entre os negros e os comerciantes dos musseques de Luanda se ter agudizado foi escolhida para integrar o COTI 1 - Comando Operacional de Tropas de Intervenção Nº. 1. Antes de regressar a Luanda ainda esteve sediada em Quicabo 15 dias a fazer escoltas entre o Caxito e Quicabo.

E foi em meados de Julho de 1974 que entrou «triunfalmente» em Luanda, como se estivesse no mato, com as metralhadoras pesadas em cima das Berliets e ficou aquartelada no Agrupamento de Engenharia de Angola até que houvesse instalações no Campo Militar do Grafanil, onde estavam sediadas todas as companhias do COTI 1. No início de 1975 foi colocada no antigo R.I. 20 já quase dentro da cidade de Luanda e aqui se manteve até ser novamente colocada no Agrupamento de Engenharia de Angola, (apenas um mês) - local de onde saiu para o aeroporto para regressar a Portugal em 21 de Agosto de 1975.

Aos camaradas que queiram contribuir para viabilizar este fotoblogue serão bem vindos.
Vamos comentar sem medo o que passámos, o que sentimos, o que pensamos, o que sabemos, as nossas opiniões etc.

E viva o 25 de Abril!
Viva o BART 6323!
Viva a 1ª CART !
E vivamos todos nós - aqueles que sobrevivemos, que fomos heróis sem reconhecimento, sem honra e sem glória, ignorados, esquecidos e maltratados pelo poder político instalado!

Vamos fazer deste local um ponto de encontro e um repositório de recordações que fiquem para memória futura, porque um povo sem memória é um povo sem futuro.

Albino Lima

Palácio de Queluz - Lisboa 

Após dois meses de recruta, jurei bandeira em Aveiro e de seguida mandaram-me para uma localidade não menos maravilhosa, fui tirar a especialidade de clarim no antigo regimento de artilharia antiaérea fixa ( RAAF ) em Queluz, hoje (RAAA 1) um lugar que frequentemente vou visitar porque está agregado ao palácio de Queluz, um palácio que recomendo a visitarem, e foi aqui que passei os melhores quatro meses da minha vida militar!!!

Penso até que antes de haver democracia, aqui já existia, a loiça era de cerâmica, a comida para dizer-se de soldado era boa, e toda e todas as semanas era eleito um soldado por todos para presidir à mesa e distribuir a comida democraticamente.

Palácio de Queluz - Lisboa, Portugal - Queluz Palace

Jardins do Palácio de Queluz


O Clarim

 O Clarim

Módico instrumento que na Artilharia, 

Com seus toques nos transmitia, tantas emoções,

Realçava os nossos deveres do dia a dia,

E hoje me faz lembrar tantas recordações.

Na semana I. A. O; A 1ª CArt. 6323 Estava acampada,

A 25 de Abril logo de madrugada,

O Oficial de serviço de surpresa me ordenava,

Ò Lima vai tocar a "Alvorada",

Acompanhando o sol de um novo dia,

Rompe o silencio que até então reinava,

Ninguém sabia o que ocorria e nem o que dizia,

Despertando com a minha súbita clarinada.

Sonolento e sem saber da realidade,

Lá vou tocando a atabalhoada alvorada,

Quem diria que tal toque nos daria,

A esperança para a nossa liberdade,

Transmitindo as ordens que por ele passava

Como mensageiro sonoro, o Clarim prevenia,

Colocava-nos prontos para a hora exacta,

Cumprindo as missões da Artilharia.

Doces lembranças palpitam em mim,

Poderoso inconfundível e vibrante,

Com o comovente toque do Clarim,

Punha em sentido o próprio comandante.

Como homenagem aos mortos da nobre arma,

O toque choroso do "Silêncio", pelo Clarim,

Parece chegar até na própria alma

Daqueles a quem chegou o seu fim.

De ex. - Soldado Clarim: Albino Lima_______________________________________________________________________________ O Clarim é um aerofone da família dos metais.

É composto por um tubo com um bocal em uma das extremidades e uma campânula na outra, sem possuir orifícios ou válvulas de qualquer espécie ao longo de seu corpo, sendo um dos instrumentos mais simples de sua família. O controle das notas é feito pela variação da embocadura do instrumentista, já que o clarim não possui outros meios para tal controle. Consequentemente, o clarim está limitado a soar notas dentro da série harmónica do seu som fundamental. O clarim é usado principalmente em meios militares, no exército português é usado na Artilharia e Cavalaria, na Infantaria é usada a Corneta daí o Corneteiro.


              Clarim                                                                                Bocal    »»»»» 

O felizardo

Ao chegar a minha vez

O felizardo

Esta era a imagem de um felizardo,

Minutos antes de cortar o cabelo,

Para não correr o risco,

De o levar completamente rapado.

Cabelo fino, que nem seda,

Loiro e bem cuidado,

Como qualquer rapaz da época,

Usava madeixa ao lado,

Vestia bem, diria que vestia à moda,

Calça apertada,

Com boca-de-sino,

De cinturão, fivela larga.

Para a família era o Bino,

No trabalho o apelido,

Para as garotas o fininho,

Seu nome próprio, eu não digo

Acabava de chegar de viagem,

E quando a casa chegou,

Devassa mas sem surpresa,

Uma missiva encontrou.

Para ir passar férias,

Com bilhete só ida,

E ainda recebia jorna,

Com educação física incluída.

Era tudo uma riqueza,

E até a roupa era dada,

E para não faltar nada,

Incluía cama e mesa.

E o destino, quem diria,

Um lugar digno de beleza,

Com seus barcos e sua ria,

A Veneza portuguesa.

E a partir deste dia,

Viveu histórias da severa,

Entre maus e bons momentos,

Mas já mais voltaria a ser quem era.

Como nem todos os cristãos,

Merecem esta sorte que Deus lhe deu,

Era só para os mais devotos,

E afinal este devoto, "era eu ".

De Albino Lima

Esta também é uma história muito interessante. 


Chegda a Lisboa a 6 de Agosto de 1973


Tinha chegado de uma viagem vindo do norte da Europa.
Cheguei a casa e tive de voltar para Lisboa, para apresentar a missiva na companhia, pois já estava atrasado porque a apresentação era para ser no dia 5.
Foi um dia bastante corrido.
Quando regressei a casa alguém tirou-me esta fotografia e de seguida fui cortar o cabelo.
Porque agora até é moda usar o cabelo cortado bem curto mas na altura, um dos castigos praticados nas forças armadas era uma carecada.
No dia seguinte, 7 de Agosto, rumei até à cidade de Aveiro.


Tinha vindo de Antuérpia (Bélgica).

Esta também é uma história muito interessante.

Não é novidade para ninguém que por essa altura havia quem pagasse fortunas para fugir do país, para França e outros países do norte da Europa, com o intuito não só de fugir á miséria que se vivia mas principalmente fugir das guerras coloniais.

Pois a troco, já não me lembro quanto, alguém tratou-me de tudo, incluindo passaporte português, para ficar na Bélgica.

E quando já estava com a mala na rua olhei para trás e comecei a pensar que nunca mais poderia voltar a Portugal. Nessa maldita decisão voltei para bordo. Moral da história: se eu tivesse adivinhado que se iria dar o 25 de Abril teria sido um herói se tivesse ficado por lá.

Mas muito embora me tenha saído muito cara esta decisão, se não fosse assim hoje não teria a oportunidade de contar todas estas histórias.

E hoje posso gritar muito alto a todo o bom português que não devo nada, mas mesmo nada a este país.

E tenho toda a autoridade para elogiar ou criticar as boas, as menos boas e as más coisas deste pais que eu amo. Porque se aasim não fosse, hoje tinha todas as condições para viver uma vida maravilhosa se quisesse viver no estrangeiro.

Os primeiros militares a embarcarem para a guerra em Angola

Para a grande maioria, a guerra começava logo á partida de Lisboa, este navio, o Vera Cruz por exemplo, estava preparado para mil e quinhentos passageiros e de um momento para o outro foi transformado para qualquer coisa menos para transportar pessoas , chegou a levar 4.500 militares.

Lima

Portugal Continental e Ilhas Insulares

Obs. muito poucos portugueses tem o previlégio de conhecer todo o nosso pequeno país, eu já tive em todas estas localidades inclusive as nove ilhas do Açores e as duas da Madeira!!! A imagem extraí da Wikipédia livre, cada Cidade assinalada aqui no mapa é a capital de destrito, como por exemplo, São Paulo Capital, a diderença é que aqui é tudo em miniatura em comparação com os Estados Federais do Brasil e acrescentei a minha cidade que não estava assinalada " Caldas da Rainha" pertence ao distrito de Leiria!!!

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Com este texto, vou tentar decifrar a verdadeira agonia que os portugueses da minha geração e os da década anterior foram submetidos, ou seja de 1961 a 1975.

Mais para as pessoas estrangeiras, principalmente para as amigas e amigos brasileiros, que acredito ser pouco provável conhecerem a verdadeira história e até porque uma grande parte dos meus amigos/as ainda tem uma gotinha de sangue luso.

Começo pelas dimensões das ex. colónias, Angola é 14,5 vezes maior que Portugal, Moçambique 9,5, só estas duas soma 24 vezes a dimensão do continente português, depois tinha, INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA da Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor, Macau, não contando com a índia que já tinha sido perdida em 1961, destas colónias, peço imensa desculpa mas não sei as verdadeiras dimensões.

A população portuguesa na década de 60/70, era-mos cerca de 9 milhões de habitantes,1970 - 15 de Dezembro (XI Recenseamento Geral da População) (I Recenseamento Geral da Habitação) desde o recém-nascido ao mais idoso, ou seja igual á actual população do Estado do Rio de Janeiro, andava-mos cerca de 150 mil militares em rotatividade, distribuídos por todas as colónias, não contando com os recrutas que se treinavam aqui no continente para irem render os que já tinham cumprido a sua missão, que era por norma dois anos no ultramar mas que sempre ultrapassava e havia militares que acabavam por cumprir atá 4 anos no continente e ultramar, aqueles que por várias razões não chegavam a ir para lá, uns poucos com alguma sorte, outros porque já lá tinha sido abatido um irmão e passou a ser filho único, nestes casos os militares livravam-se de lá ir e cumpriam o seu serviço cá no continente e ainda uma parte que tinham padrinhos e dinheiro que os livrava da ida à luta em Africa. Para se fazer uma melhor ideia, em termos proporcionais, por habitantes, andava-mos 4 portugueses envolvidos nas guerras de Africa para 1 americano na guerra do Vietname.

Para mim, sempre tive dificuldade em crer que alguém com um pouco de inteligência, chegasse a acreditar que era possível manter todo este império com a força das armas, até porque na altura Portugal, era um país isolado, todo o mundo estava contra nós, excepto a Alemanha que nos forneceu as primeiras armas e a Africa do Sul por razões estratégicas, visto na altura ser um país extremamente racista, o único no mundo onde existia o apartaide e estava a bem dizer rodeada por território no domínio Português, num lado estava Angola e no outro Moçambique, claro que eles sabiam que quando Portugal perdesse o controle sobre estas colónias, eles ficariam na corda bamba e assim aconteceu, logo após a independência de Angola e Moçambique, a Africa do Sul mudou do oito ao oitenta e passou a ser governada pela população negra.

Por outro lado já tinha-mos o exemplo da França com a Argélia, a França com uma população 50 vezes mais que a portuguesa, aqui a dois passos de distância e a lutar apenas por uma colónia, e foi derrotada; ainda temos o facto de Portugal ser o único país que ainda mantinha colónias em seu domínio.

Nestes 14 anos, fugiram de Portugal mais de 1 milhão de portugueses, inclusivamente para o Brasil, fugiram uma grande parte, mas a grande maioria foi aqui para França, utilizando todos os meios possíveis e imaginários, alguns sem dinheiro nenhum e só com a roupa que tinham vestida, iam a pé, 15 dias a caminhar, outros iam para a U.S.A, Canadá, e muitos outros países.

Na sequência era-mos uma população extremamente pobre, sem cultura, sem estudos, sem professores, sem médicos, sem estradas, um país praticamente analfabeto e que vivia praticamente da agricultura, feita no suporte braçal.

Ao longo do das pastagens, irei tentar captar todos os meios que tiver acesso para postar e mostrar ao mundo o que foi a verdadeira agonia da ditadura Salazarista e as suas consequências.

Depois da revolução de 25 de Abril, como é comum acontecer após as ditaduras, vem os exageros da liberdade, Portugal não foi excepção, vieram as manifestações populares, fazia-se greve por tudo e por nada, os trabalhadores expulsavam os patrões das fábricas, os fazendeiros das sua propriedades etc., etc.,

Tivemos que realojar todos os refugiados que vieram das recém independentes colónias que entretanto ficaram em guerra civil, tivemos que fazer estradas, formar professores, hoje todo o português é obrigado a fazer o 12º ano, tivemos que formar médicos, hoje todo o português tem um médico de família.

E aí o país, caía a pique em colapso financeiro, em 1986 foi preciso a intervenção do F.M.I para com um aperto de cinto, como dizemos por aqui em gíria popular, para que a ordem se restabelecesse e aos poucos também a economia.

Seguirei a sequência em novos textos.

O começo da tormenta - Link pessoal.

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E ainda há quem diga que o dito Cujo era santo!!!

2 de Janeiro de 2001 (Diário de Notícias):

"Só soldados vitoriosos ou mortos"

Na véspera da queda da Índia, Salazar pediu o sacrifício da vida aos três mil militares portugueses. Não os queria prisioneiros

José Manuel Barroso Arquivo DN

A 3 de Janeiro de 1962, António de Oliveira Salazar, o líder e fundador do regime do Estado Novo, não leu o mais doloroso discurso da sua vida política. Perante uma Assembleia Nacional aturdida pela queda da Índia Portuguesa, um Salazar afónico "com as emoções das últimas semanas" teve de recorrer ao presidente do parlamento, Mário de Figueiredo, para a leitura de um texto de reconhecimento e de justificação de uma derrota, que iniciava o fim do Império Colonial Português, sem sequer poder invocar a gesta patriótica dos milhares de soldados mortos. A 14 de Dezembro de 1961, três dias antes da invasão e ocupação do Estado Português da Índia (Goa, Damão e Diu) pelas forças da União Indiana, Salazar pedira aos soldados e marinheiros portugueses nos territórios um último sacrifício, o da vida.

Mal armados e em número reduzido (cerca de 4 mil efectivos), perante as forças indianas invasoras (cerca de 50 mil militares do Exército, Marinha e Força Aérea), resistir significava uma cruel e inútil auto-imolação para os efectivos portugueses. Nos dois dias da invasão, resistiram o que puderam, morrendo 26 militares. Mas o contingente português acabou por se render, a 19 de Dezembro, tendo o governador, general Vassalo e Silva, ordenado a "suspensão do fogo" às suas tropas.

Mais de 3 mil militares portugueses foram feitos prisioneiros pelo Exército indiano (entre os quais se encontrava o general Vassalo e Silva), os prisioneiros que Salazar não queria. Por isso puniu e perseguiu alguns dos oficiais em serviço na Índia - o que abriu dolorosa ferida nas Forças Armadas portuguesas e foi uma das raízes do derrube do regime de Salazar, doze anos depois da queda de Goa, Damão e Diu.

Na mensagem que enviou, a 14 de Dezembro de 1961, ao governador e comandante-chefe português do Estado da Índia, Vassalo e Silva, o chefe do governo de Lisboa reconhecia a "impossibilidade de assegurar a defesa plenamente eficaz" dos territórios, mas pedia ao general que organizasse essa defesa "pela forma que melhor possa fazer realçar o valor dos portugueses, segundo velha tradição na Índia". E ainda: "É horrível pensar que possa significar o sacrifício total, mas recomendo e espero esse sacrifício como única forma de nos mantermos à altura das nossas tradições e prestarmos o maior serviço ao futuro da Nação".

Sendo "impossível" a defesa "eficaz" dos territórios, dado a Índia poder multiplicar "por factor arbitrário" as suas forças de ataque - conforme Salazar reconhecia na sua mensagem - a ordem dada ao general Vassalo e Silva revelava-se inequívoca. "Não prevejo possibilidade de tréguas nem prisioneiros portugueses, como não haverá navios rendidos, pois sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos". O telegrama de Salazar a Vassalo e Silva, ao reconhecer a "impossibilidade de assegurar a defesa", exigia mártires, que pudessem ser exibidos interna e externamente, em nome de uma política de intransigência que tinha como horizonte o futuro dos territórios ultramarinos de África - onde a guerra começara já (em Angola) nesse ano de 1961.

Por isso, na sua mensagem à Assembleia Nacional, a 3 de Janeiro de 1962, Salazar invoca o princípio da soberania nacional, tal como o definia o ordenamento jurídico da Constituição do Estado Novo. "Nós não podemos negociar, sem nos negarmos e sem trairmos os nossos, a cedência de territórios nacionais, nem a transferência das populações que os habitam para soberanias estranhas", disse Salazar. Era o fundamento de uma política de resistência.

A "questão da Índia" começara uma dezena de anos antes, com a independência da União Indiana. Desde 1948 que, directa ou indirectamente, as autoridades do novo país - a "jóia da Corôa" do império britânico - reclamavam a integração na grande Índia dos territórios que Portugal detinha sob sua administração, desde há quase cinco séculos (ler cronologia). Em 1950, o governo indiano solicita, formalmente, a Lisboa, a abertura de negociações, quanto ao futuro dos territórios portugueses. Portugal recusou sempre qualquer diálogo com a União Indiana.

Em 1953, o primeiro-ministro indiano, Nehru, afirma que, face à recusa portuguesa, o seu país não vê outra solução que não seja "a tranferência directa que assegure a fusão daqueles territórios com a União Indiana".

No seio do regime português discute-se a possibilidade de outras soluções, para preservar a autonomia dos territórios. Mas Salazar, reconhecendo embora que Goa (o maior dos três territórios) é, ele próprio, militarmente indefensável, entende que um plebiscito ou mesmo a independência não constituem soluções, uma vez que Nehru declara já as não aceitar.

A ideia do plebiscito atraía, então, um sector importante do regime, como forma de demonstração, por parte de Portugal, do respeito pela vontade das populações da Índia Portuguesa e como argumento perante a comunidade internacional. Mas o precedente que abria, para o Ultramar, solidificou a intransigência de Oliveira Salazar - e levou à humilhação na Índia.

Cronologia

SÉC. XV. O objectivo estratégico de Portugal, neste período, era a descoberta do caminho marítimo para a Índia (1498, por Vasco da Gama). O historiador britânico Arnold Toynbee divide a história do mundo em duas fases, a do homem pré-gâmico e a do homem pós-gâmico. "A forma como as religiões cristã, indostânica e muçulmana se desenvolveram, lado a lado, em Goa, durante séculos e em mútuo respeito, constitui uma das características da presença portuguesa no Oriente". O controlo naval do Índico é uma meta.

SÉC. XVI. D.João III define o seu conceito estratégico de "abandonar o norte de África, manter o possível na Índia e fazer o esforço no Brasil".

SÉC. XIX. Depois da independência do Brasil (1822), o esforço estratégico de Portugal no Ultramar dirige-se para África.

1947. A Grã-Bretanha concede a independência à Índia. Nesse ano, o primeiro-ministro indiano, Nehru, afirma que o seu país dará todo o apoio ao povo de Goa para conseguir a libertação. 1948. O goês António Bruto da Costa escreve a salazar condenando o Acto Colonial e defendendo uma verdadeira autonomia administrativa do Estado Português da Índia.

1949. O governo indiano exige à Santa Sé a extinção do Padroado do Oriente, cessando o privilégio concedido a Portugal de designação de bispos para dioceses indianas _ reduzindo a Goa a arquidiocese de Goa.

1950. O governo indiano propõe ao governo português negociações para definição do futuro dos territórios portugueses na Índia. Lisboa rejeita a proposta. Negoceia com a Sanceia com a Santa Sé a redelimitação da arquidiocese de Goa.

1954. A 30 de Novembro, em discurso na Assembleia Nacional, Salazar reconhece que Goa é indefensável militarmente.

1961.Redução dos efectivos militares portugueses na Índia (1960). A União Indiana ocupa militarmente o Estado Português da Índia e anexa Goa, Damão e Diu ao seu território.


Inicio da Guerra Colonial

Guerra Colonial
No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, o domínio colonial das potências europeias sobre territórios africanos e asiáticos começou a ser fortemente posto em causa, tendo-se formado um vasto movimento ideológico e político tendente a obter a independência daqueles territórios. Tal foi sendo conseguido, nalguns poucos casos, sem surtos significativos de violência; mas, na maioria das independências, prevaleceu o uso da força. Foi o caso da revolta dos Mau-Mau no Quénia britânico, e da prolongada e duríssima guerra da Argélia, por exemplo.
O último império a ser afetado foi o português, que perdeu a primeira parcela após uma guerra de curta duração em que as forças portuguesas estacionadas em Goa, Damão e Diu não puderam contrariar a invasão daqueles territórios por forças indianas, incomparavelmente mais fortes. Esta derrota serviu, contudo, para demonstrar dois factos importantes: a) Salazar privilegiaria sempre a vertente militar para resolver as questões de soberania que se lhe colocassem no âmbito colonial; de facto, ordenara a resistência a todo o custo, sem olhar aos sacrifícios materiais e humanos que isso acarretaria; b) a posição portuguesa no jogo da diplomacia mundial era débil e incapaz de mobilizar apoios em defesa de domínios coloniais, já que a própria Inglaterra, instada a honrar históricos compromissos de solidariedade em nome da secular aliança entre os dois países, se recusara a apoiar a posição do Governo português.
Em 1961 abre-se um novo capítulo na história do Império colonial português. Dois acontecimentos marcam o início de uma guerra que durará 13 anos, até que o poder revolucionário saído do 25 de abril de 1974 imponha um fim político ao conflito: 1) a 4 de fevereiro, militantes do MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) tentam tomar de assalto esquadras de polícia em Luanda, sendo repelidos depois de combates violentos em vários pontos da cidade; 2) em 15 de março, a UPA (União das Populações de Angola, mais tarde denominada FNLA = Frente Nacional de Libertação de Angola) lança uma série de ataques mortíferos em zonas isoladas e desguarnecidas do norte da colónia, tentando erradicar a população branca. Estes dois movimentos, a que anos mais tarde se juntará a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), fruto de uma dissidência na UPA, conduzem uma luta de guerrilha que, após uma primeira fase de êxitos táticos, se vê remetida à defensiva. A guerra em Angola não conhecerá nunca um vencedor claro nem um derrotado assumido.
Muito diferente é a situação na Guiné-Bissau, onde se encontra em campo uma única organização política, o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde), que não encontra rivais no terreno desde o início do conflito em 1963, beneficia de apoios logísticos eficazes nos países vizinhos, tem a simpatia dos governos do Terceiro Mundo com representação e influência na Assembleia Geral das Nações Unidas, consegue os êxitos táticos suficientes para reunir uma assembleia de delegados em Madina do Boé, proclamar unilateralmente a independência e vê-la reconhecida por numerosos países em 1973.
Em Moçambique, a guerra é desencadeada em 1964 pela FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), que tem de se confrontar não só com outras forças, menos estruturadas, no terreno, mas que enfrenta no seu seio dissidências de carácter étnico, que a enfraquecem. Tal como em Angola, a guerra nunca se decidirá claramente a favor das forças portuguesas, no plano militar, apesar de algumas operações de grande envergadura, desencadeadas particularmente pelo general Kaúlza de Arriaga. Tal como em Angola, o 25 de abril irá encontrar a situação num impasse.
Na África, apenas os territórios insulares (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe) ficarão imunes à guerra; na Ásia, Macau sofrerá de alguns momentos de instabilidade por influência da Revolução Cultural na vizinha República Popular da China e Timor só verá surgir os seus movimentos a favor da independência após o 25 de abril de 1974.
Logo em 1961, Salazar formula numa frase lapidar a sua intenção de privilegiar a defesa do império, custe o que custar, enviando tropas para Angola, "imediatamente e em força", rejeitando toda e qualquer negociação, mesmo que Portugal se encontrasse "orgulhosamente só" a partir desse momento. Apesar de privilegiar a solução militar, introduzirá alterações no estatuto legal e social dos indígenas africanos, promoverá ações sociais para captar a simpatia das populações, abrirá as colónias ao investimento metropolitano e externo, procurará incentivar a emigração para África, desviando-a da França, para onde se dirigia de preferência naquele momento. A guerra, travada em três frentes, significará um investimento extremamente gravoso para as finanças do Estado português, provocará dissensões no seio do próprio Governo (golpe do general Botelho Moniz, em abril de 1961), desgastará o moral das próprias forças armadas, retirará braços à produção em Portugal e provocará o isolamento do país na arena diplomática mundial (tanto nas relações multilaterais no seio da Organização das Nações Unidas como a nível bilateral). O seu balanço em termos humanos é trágico: mobilização de cerca de um milhão e quatrocentos mil homens, aproximadamente nove mil mortos e trinta mil feridos e ainda cento e quarenta mil ex-combatentes sofrendo de distúrbio pós-traumático do stress de guerra (isto sem esquecer as vítimas civis, de ambos os lados, obviamente em maior número entre as populações do teatro de guerra, mas que nenhum dos beligerantes alguma vez contabilizou).
Um dos maiores golpes diplomáticos contra as posições do Governo português será a audiência concedida a dirigentes dos movimentos das três colónias pelo papa Paulo VI, em 1 de julho de 1970. Marcello Caetano, que sucede a Salazar na chefia do Governo, não encontrará também solução para o conflito, quer por meios militares quer por meios pacíficos. Será apenas por meios diplomáticos e políticos, por iniciativa do poder revolucionário instituído em 1974, que o conflito verá o seu termo.



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